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[ Escolha Seu Jogo ] |
Manhã,
hora da entrada em uma escola no Rio de Janeiro. Na porta, a professora vê algo
brilhar no chão. É uma cápsula deflagrada. Outra bala perdida.
No
mesmo momento, no centro da cidade, em meio a executivos e secretárias
apressadas, camelôs estão abrindo suas banquinhas. A mercadoria do dia
aparece: cópias piratas de praticamente qualquer programa de computador. O negócio
parece bom: por dez reais você leva para casa um software que na loja custa
seiscentos.
Pirataria e violência são problemas sociais bem diferentes, que incomodam pessoas diferentes. A pirataria atinge principalmente o empresariado. A violência, a todos, principalmente os mais pobres. Apesar disso, há aspectos em comum nesses dois assuntos que podem mostrar algo sobre nossa sociedade.
Um primeiro ponto em comum é que esses dois problemas sociais têm conseqüências graves, embora diferentes. A pirataria provoca a perda de impostos e de empregos. Pior ainda, dissemina uma corrosão moral sutil, quando usar algo sem retribuir o esforço da criação se torna um hábito difundido e até aceito. Já na violência, perdem-se vidas, sonhos, possibilidades: é a dor que relatórios, estatísticas ou palavras não conseguirão nunca refletir.
Outro
ponto que sobressai em comum entre pirataria e violência é o quanto ambas se
tornaram praticamente parte da nosso dia-a-dia. Siglas de facções do crime
organizado aparecem nas brincadeiras de polícia e ladrão das crianças de
hoje. Ao mesmo tempo – não olhe na estante – em quase toda casa brasileira
onde há computador, roda algum software pirata.
Finalmente,
é interessante como para ambos os problemas são sugeridas as mesmas soluções
e como essas soluções se mostraram até agora ineficazes. A primeira solução
é: mais repressão. A segunda é: investir mais no social.
Repressão
policial é uma resposta curta e que promete resultados rápidos. É fácil de
entender, dá votos e é, aparentemente, mais barata. Ao mesmo tempo, investir
no social é uma resposta cada vez mais ouvida entre lideranças políticas e
empresários mais sensíveis.
Contudo,
para aumentar a segurança e o temor à legislação, compram-se mais armamentos
e aumenta-se o efetivo policial. Já no campo do "investimento"
social, em geral vemos ações sem continuidade e sem profundidade: um dia vão
alguns dentistas a uma favela, em outro se tiram uns documentos de identidade -
e depois as comunidades mais pobres voltam ao completo abandono. As ONGs vêm
tentando suprir os serviços básicos que o Estado tem abandonado, mas lutam com
a crônica falta de recursos. Resultado: no fim, nem os índices de violência
caem, nem a pirataria diminui.
Essa
reflexão pretende mostrar que pode ser necessário, na verdade, mais do que
esse tipo de ações. Talvez seja necessário, agora, construir um novo projeto
para o país: um projeto que some esforços em uma direção definida: a
dignidade material e social mínima, para todos. Não só conversa, mas uma
prioridade política, coletiva, um objetivo real.
Pode-se
dizer que falar é fácil: o problema, como sempre, é que isso custa dinheiro.
Custa mesmo. Prioridade quer dizer fazer coisas como, por exemplo, triplicar o
salário de todos os professores públicos do país, em todos os níveis. Ou
investir em uma polícia renovada, realmente qualificada, melhor paga e capaz de
agir com eficiência e com cidadania.
O
problema talvez não seja o custo, mas a escolha. Em um país que está entre as
maiores economias mundiais, mas é o 43º
em distribuição da renda, o dinheiro obviamente existe: ele está em algum
lugar. Talvez, em parte, se perdendo na máquina estatal; provavelmente, em
grande parte, centrifugando em torno do superconsumo de um pequeno grupo; ou,
ainda, sendo usado em especulação financeira.
A
questão é escolher o destino que deve ser dado a essa riqueza. Maluquice ou
utopia, só quando esse dinheiro "falecer" devidamente em aplicações
na cultura - em educação, em qualificação, em desenvolvimento de pessoas -
é que ele poderá criar vida. Inclusive mais líderes, mais empreendedores,
mais negócios, mais mercado, mais consumidores.
O
problema maior talvez seja, portanto, nossa escolha pessoal: se vamos
transformar a riqueza singular em plural. Por enquanto, temos preferido comprar
uma bala no sinal e encontrar balas na porta de escolas. Por força do hábito,
ou da emoção do jogo, permanecemos reféns, enquanto o valor do resgate
aumenta. Continuamos em frente ao computador, jogando "Mortal Kombat"
com piratas de todos os tipos – e perdendo.
Marco
de Carvalho
Publicitário, colabora com a ONG Mutirum - RJ, desenvolvendo o
projeto de uma
empresa com lucros que se destinam a iniciativas sociais.