[ Forças Econômicas que Impulsionam a Indústria Bélica e a Guerra ]

 

 

 

Sob quais condições podemos dar-nos ao luxo de usufruir a paz?

 

Frank Bohner

 

 

A guerra no Afeganistão nos urge, mais uma vez, para analisar os motivos tático-financeiros atrás do setor da indústria bélica. Tendo em vista a fome e a miséria no mundo, parece realmente ser irresponsável e grotesco investir somas cada vez maiores em projetos de armamento. Pois, a produção de equipamento bélico também leva a um aumento do risco de conflitos bélicos. Portanto, por muitas partes exige-se uma conversão ecológica. Em vez de bens de armamento, deveriam ser produzidos os produtos civis que são necessários e ecologicamente corretos. No entanto, na maioria das vezes, não se percebe que então - pelo menos sob as condições atuais - muitos mercados ficariam saturados em menos tempo ainda. Porém, o sistema da economia capitalista não sabe lidar com processos de saturação. Este aspecto será abordado de maneira mais abrangente a seguir. Tentar-se-á demonstrar sob qual pré-requisito um sistema econômico pode funcionar mesmo sem a loucura armamentista e sem guerra, preservando as bases naturais da vida humana, ou seja, oferecendo pleno emprego e bem-estar social para todos.

 

Vínculos entre a economia e a indústria bélica já foram freqüentemente apontados e descritos. Muitas pessoas não estão cientes da importância que o sistema monetário atual tem neste contexto.1 Como se sabe, o dinheiro tem um papel-chave na economia, ele intermedia entre a demanda e a oferta de produtos e serviços. Quando empresários e trabalhadores querem produzir algo em conjunto, eles precisam de recursos financeiros. Como e sob quais condições a demanda e a oferta se encontram e o trabalho do empresário e o do assalariado é engendrado, depende do tipo de sistema monetário.2 No sistema monetário convencional, juros incidem sobre os empréstimos. Sem juros não há dinheiro, não há trabalho, não há produção, não há satisfação da demanda.

 

Quanto o dinheiro custa, qual é o seu preço (os juros), isso depende, numa economia de livre mercado, da oferta e da demanda. Se a oferta estiver crescendo constantemente mais do que a demanda, os juros diminuirão paulatinamente cada vez mais. Finalmente, os juros podem cair para um patamar tão baixo que, do ponto de vista dos que dispõem do capital financeiro, não vale mais a pena de investir. O processo de longo prazo da tendência de queda da taxa de juros está baseado na interdependência entre os juros que incidem sobre os ativos fixos e sobre o capital financeiro, respectivamente. Devido ao aumento contínuo dos ativos fixos (construções, máquinas, etc) e do capital financeiro, os juros sobre os ativos fixos diminuem e, em conseqüência, também os juros sobre o capital financeiro. Ambos tendem para o valor zero - uma evolução totalmente normal em direção à saturação natural, ao equilíbrio entre oferta e demanda, porém, no sistema monetário tradicional esta evolução é interrompida numa fase prematura. Pois, se durante um período de juros baixos a tendência em direção ao juro zero continuasse, a disposição de investimento por parte do setor do capital financeiro diminuiria rapidamente e, descarte, a função de intermediação do dinheiro ficaria praticamente paralisada. Conseqüentemente, a produção e o comercio seriam paralisados, a economia do pais entraria numa grande crise com desemprego muito elevado. O governo pode impedir uma evolução do patamar dos juros em direção a zero, o que seria desfavorável ao capital, com o objetivo de evitar uma grande crise, ao criar uma demanda especial por capital, principalmente por meio da indústria bélica.

 

A produção de armamento é especialmente interessante para a preservação da rentabilidade do capital. Os respectivos bens não aparecem no mercado civil da economia do pais, eles não aumentam a oferta de ativos fixos com o efeito de levar a uma queda mais acelerada do patamar dos juros. O contínuo aumento dos ativos fixos bélicos não provoca uma diminuição dos juros. A tomada de empréstimos por parte do governo e a fixação arbitrária dos juros por parte dos bancos centrais garantem o rendimento e os juros para o capital. Além disso, devido à correspondente renúncia à produção civil - muitos milhões de pessoas trabalham na indústria bélica - a demanda no setor civil não é satisfeita suficientemente, o que leva a uma diminuição mais demorada do nível dos juros. Rudolf Steiner disse em sua palestra do dia 28 de Maio de 1919:

 

“O capitalismo passou por uma mudança em conseqüência da economia de guerra. De uma certa maneira, a economia de guerra elevou o capitalismo a seu nível mais alto. E isso somente era possível porque os processos econômicos desconsideravam totalmente as necessidades verdadeiras das pessoas: eles somente trabalhavam em função da guerra.”3

 

As obras e palestras de Steiner contêm múltiplas e, às vezes, bastante diferentes afirmações a respeito do capitalismo, entre outras a seguinte:

 

"Desta maneira, o processo monetário é desvinculado do processo econômico, retirado do processo econômico, destarte, o próprio dinheiro toma-se uma mercadoria e, sendo assim, o dinheiro, que em verdade não deve ser uma mercadoria, pode se tomar totalmente autônomo. Porém, eis a base do capitalismo."4

 

E em uma outra palestra ele diz:

 

"Ao analisar a característica mais significativa do capitalismo com um pouco mais precisão, descobrir-se-á justamente que ele encontrou, por assim dizer, seu campo de expansão por meio da terrível catástrofe mundial. Pois, qual é uma das principais características da ordem mundial da economia capitalista? É o fato das pessoas partirem da assim chamada rentabilidade, da aplicabilidade dI capital, quando se trata da atividade econômica das pessoas, do seu enriquecimento pessoal. Ora, eu pergunto os senhores: Até que ponto os fatores que são atribuídos à aplicabilidade de capitais em grande escala fazem parte das causas da catástrofe de terror?"5

 

A importância prioritária dos juros no sistema monetário existente e a função da produção de armas para a preservação da rentabilidade do capital já devem ter ficado mais ou menos claras no decorrer destas considerações. No entanto, ainda precisamos assumir Uma outra perspectiva para identificar, num âmbito maior, a problemática decorrente do sistema monetário.

 

O princípio de juro e juro sobre juros significa um crescimento porcentual, um crescimento exponencial a longo prazo. Por exemplo, um montante de 2000 Euros, a juros de 9%, aumenta num prazo de oito anos para 4000, e, em mais alguns anos para 8000. É como a seqüência geométrica 2, 4, 8, 16, 32, 64, 128, etc. A regra para determinar o período de duplicação é 72/taxa de juros = prazo de duplicação em anos.

 

Numa palestra do 30/11/1918, Rudolf Steiner chega ao seguinte resultado:

 

"Hoje existe algo extremamente anti-natural na ordem social, é o fato de que o dinheiro aumenta por meio da mera posse. O dinheiro é aplicado num banco e rende juros. Eis a coisa mais anti-natural que pode existir. Em verdade, trata-se de uma pura bobagem. Não se faz nada, aplica-se o dinheiro, que talvez nem foi obtido por meio do trabalho, mas foi herdado, num banco e recebe-se juros sobre este dinheiro. Eis uma bobagem total."6

 

Trata-se de uma forma de crescimento que não quer aceitar limites naturais. Ora, todo o capital da economia de um país não cresce num ritmo tão acelerado porque sempre ocorrem retiradas de montantes para fins de consumo. A seqüência geométrica demonstra a velocidade máxima com a qual um montante pode crescer. No entanto, mais cedo ou mais tarde, o constante aumento do patrimônio financeiro leva a desequilíbrios cada vez maiores. Não é de estranhar que o patrimônio financeiro, no período entre 1960 e 1985, se multiplicou 56 vezes, enquanto o desempenho sócio-econômico aumentou 18 vezes.

 

O aumento constante do patrimônio financeiro exige um número cada vez maior de possibilidades lucrativas para o investimento e a aplicação financeira. Estas possibilidades são criadas - garantidas por meio da política governamental de endividamento - principalmente por meio da expansiva indústria bélica, mas também, por exemplo, por meio das usinas de energia nuclear, de capital intensivo e de uma vida útil relativamente curta. Como o patrimônio financeiro aumenta constantemente e os bancos precisam ganhar os juros para os seus clientes, estes projetos absurdos também precisam crescer (overkill) e a criação de projetos militares precisa ser estendida até o espaço sideral.

 

Ora, se os investimentos na indústria bélica fossem abandonados no caso de um processo de desarmamento em grande escala, não somente milhões de funcionários seriam "disponibilizados", mas, devido à enxurrada de capital, também seria o fim de sua rentabilidade. Por falta de perspectiva de ganhos de juro, quase não haveria novos investimentos. A economia entraria numa grave crise com um nível de desemprego extremamente elevado.

 

Mesmo se no âmbito da produção civil projetos do porte da indústria bélica fossem criados - o que, provavelmente, seria problemático devido à progressiva destruição do meio ambiente -, somente seria uma alegria de pouca duração para o capital, pois o aumento contínuo dos ativos fixos provocaria a rápida queda dos juros.

 

George Bemard Shaw escreveu no ano de 1944:

 

"Todos os capitalistas que eu conheço odeiam a guerra, igual como eu. Supor que alguém de nos atiraria, de propósito, um fósforo aceso dentro de um armazém de pólvora, para elevar a taxa de juros por dois ou três por cento, seria a mais bizarra contradição em relação à natureza humana e aos fatos concretos... E mesmo assim, a guerra segue ao aumento dos dois e meio por cento com a mesma certeza com a qual a noite segue ao dia."7

 

Após tudo isso, o desarmamento a uma escala maior é pouco imaginável enquanto o sistema monetário atual for mantido. Não se trata simplesmente da ganância dos fabricantes de armamento e decisões político-militares que alimentam os negócios do setor bélico, mas principalmente também as necessidades econômicas decorrentes do sistema monetário que realmente exigem a loucura armamentista.

 

 

Um Novo Sistema Monetário


 

As iniciativas organizadas no movimento pacifista precisam concentrar-se intensamente na exigência de um melhor sistema monetário, que possibilitaria, no caso da dissolução da indústria bélica, manter a conjuntura econômica e criar empregos alternativos para a mão de obra "disponibilizada". Por exemplo, a nacionalização dos meios de produção e dos bancos não resolvem o problema.

 

É necessário um sistema monetário no qual o dinheiro, na função de um meio neutro de troca, independente da taxa de juros, possa circular regularmente e, destarte, não possa ser obstáculo algum para o encontro entre a demanda e a oferta de produtos e serviços. Se as quotas de poupança interna do país também fossem disponibilizadas para investimentos a juro zero, o ímpeto do capital para procurar opções de aplicação cada vez mais rentáveis seria destituído. Então, mesmo sem projetos absurdos de capital intenso, empregos para todos poderiam ser criados e, sobre tudo, também empregos que hoje, devido às considerações prévias referentes à rentabilidade, não têm a mínima chance de sucesso. Um novo sistema monetário deste gênero também possibilitaria desistir de qualquer expansão econômica nociva ao meio ambiente e estabelecer um equilíbrio saudável entre a economia e a natureza.

 

O desconhecimento, velhos costumes e uma crença amplamente espalhada nas presumíveis vantagens da superioridade do princípio do juro sobre juros, dificultam para muitas pessoas a possibilidade de desvincular-se, pelo menos nos pensamentos, deste princípio. Porém, quem realmente é beneficiado por este princípio de crescimento do sistema monetário convencional?

 

Apenas 10 até 15 por cento da população se beneficiam dos juros e do juro sobre juros, eles possuem um patrimônio financeiro e ativos fixos de um valor tão elevado que constantemente arrecadam juros maiores do que eles mesmos precisam pagar. Por outro lado, a grande maioria precisa pagar juros muito maiores, por meio dos preços das mercadorias e dos serviços, por meio dos impostos e aluguéis, durante a vida inteira (e não somente juros que incidem sobre empréstimos pessoais!), do que consegue ganhar por meio dos seus depósitos de poupança. A grande maioria somente assiste como - apenas em decorrência do sistema monetário - os ricos ficam cada vez mais ricos enquanto eles mesmos, com seu aumento de patrimônio (se realmente houver aumento), ficam cada vez mais atrás.

 

Somente levando em consideração os motivos sociais, um sistema monetário libertado da dominância do princípio do juro sobre juros já seria, para a maioria das pessoas, algo desejável. Pelo ponto de vista sócio-econômico é um escândalo, diante do que consta da nossa Constituição Federal, que a União insiste na manutenção de um sistema monetário que providencia privilégios deste porte para uma minoria. O sistema monetário é uma instituição pública. Esta não pode conceder as maiores vantagens a uma minoria, a custo da grande maioria. Aqui se trata de uma grave violação do princípio da igualdade. Muitas pessoas também se agarram ao rendimento de sua poupança pelo motivo de considerá-lo uma compensação das perdas sofridas em decorrência da inflação. Eis um ponto de vista correto para o sistema monetário atual. No entanto, em última instância, a desvalorização monetária também é a conseqüência de um sistema econômico dominado pelo princípio do juro sobre juros. Num sistema monetário social, a moeda sempre pode ser mantida estável de modo que, sem problema algum, os juros como forma de compensação pelas perdas inflacionárias podem ser negligenciadas.8 Aliás, salários mais altos (devido à eliminação dos custos financeiros) possibilitarão então economizar montantes maiores do que até agora, durante prazos prolongados. Tal vantagem, a economia baseada no sistema de juros nunca conseguiu trazer para a maioria da população e nunca a concederá.

 

Embora um sistema monetário libertado da predominância do princípio do juro sobre juros traria apenas vantagens para a maioria das pessoas, a questão do sistema monetário não é um tópico da discussão pública. A mídia impressa, rádio e televisão quase não incluem este assunto em suas reportagens. Ou estas instituições estão sendo dominadas pelos interesses de minorias extremamente ricas, ou elas são simplesmente cegas e não enxergam as conseqüências do sistema monetário convencional, de modo que elas comunicam nada, ou muito pouco, sobre sistemas monetários alternativos, à grande maioria da população.

 

Também no meio antroposófico não é muito conhecido que Rudolf Steiner também se ocupava com a questão do sistema monetário e sugeriu que o dinheiro dever-se-ia desgastar, igual como o fazem as mercadorias. O dinheiro precisa envelhecer, assim disse Steiner no Curso de Economia Política.9

 

Para os contemporâneos com ambições para reformar a ordem monetária, é bastante difícil e exige muitos esforços expor suas idéias ao debate.10 O direito de livre expressão não adianta muito se não há a possibilidade para divulgar sua opinião. Somente por meio do trabalho paciente, num âmbito pequeno, os esclarecimentos contra muitas resistências precisam ser fornecidos. Somente quando um número considerável de pessoas exigir um sistema monetário melhor, um número suficiente de especialistas pode ousar defender estas idéias também e pressionar os governos com propostas para uma possível solução. Os políticos - já sob a suspeita de servir predominantemente aos interesses de grupos específicos - dificilmente presentearão o povo, por iniciativa própria, sem a pressão da grande maioria, com um sistema monetário melhor. Conseqüentemente, eles tampouco serão capazes de liberar-nos da ameaça da loucura armamentista, mesmo se eles quisessem.

 

O movimento pacifista não tem como evitar o estudo da questão do sistema monetário. Se ele não o fizer, todas as suas belas idéias terão que permanecer ilusões. Quase nenhum país pode se dar o luxo do desarmamento, a uma escala maior, devido à ameaça de problemas econômicos decorrentes da ordem monetária.

 

Para concluir, mais uma observação a respeito do círculo de pessoas beneficiadas pelo sistema monetário atual. O objetivo desta contribuição não é dizer que todos eles seriam a favor da loucura armamentista, ou até a favor da guerra, para, destarte, obter lucros financeiros. No entanto, com certeza, alguns deles não estão dispostos a renunciar a seus privilégios, em prol de um sistema monetário a serviço da paz e da população em geral. Quantas pessoas que hoje são relativamente pobres não queriam manter, se elas ficassem ricas, do mesmo jeito os privilégios obtidos?

 

Não obstante, também a minoria beneficiada pela ordem monetária atual obteria uma vantagem por meio da introdução de um sistema monetário social: é certo que as suas fortunas não poderiam continuar a crescer sem serviço de trabalho, o que ocorre atualmente, mas o desarmamento que seria possível então, a eliminação do risco de vida decorrente da loucura armamentista, que constituí para eles e para os seus fIlhos uma constante ameaça, os deixaria viver e dormir com maior tranqüilidade.

 


 

1 Este ensaio está baseado, em partes, num trabalho feito por Josef Hüwe e publicado por iniciativa própria, em Berlim, com o título: "O sistema monetário tradicional obriga à expansão armamentista?".

 

2 Vide também Helmut Creuz, Forças econômicas que impulsionam a indústria bélica e a guerra, revista para Economia Social, 128. Edição (Fevereiro 2001), p. 21 - 38. Disponível: Editora para Economia Social, Caixa Postal 1320, D - 24319 Lütjenburg [Verlag für Sozialökonomie, Postfach...].

 

3 Rudolf Steiner, Comissões de fábrica e socialização. Encontros de discussão com as comissões de trabalhadores das grandes indústrias em Stuttgart. GA 331, p. 93s.

 

4 Palestra ministrada no dia 22/05/1919, vide nota de rodapé 3, p. 61.

 

5 Palestra do 13/05/1919 em RudoIf Steiner, Nova estrutura do organismo social. GA 330/331, p. 164s.

 

6 Rudolf Steiner, A exigência básica social da nossa época. Numa época diferente. GA 186. P.50s.

 

7 George Bernard Shaw, Política para todo mundo. Zurique 1984, p. 218. O original em inglês foi lançado em 1944 sob o título "Everybody's political what's what?".

 

8 Vide Margrit Kennedy, Dinheiro sem Juros e Inflação - Um meio de troca a serviço de todo mundo. Munique, 1991.

 

9 Rudolf Steiner, Curso de Economia Política. GA 341, p. 77s. Vide também Dieter Suhr, O dinheiro que envelhece. O conceito desenvolvido por Rudolf Steiner visto sob o ângulo monetarista. Schafthausen, 1988.

 

10 Recomendado como introdução: o livro escrito por Helmut Creutz, A síndrome do dinheiro. Caminhos rumo a uma ordem econômica livre de crises. Munique, 2001. Internet, consulte www.geldreform.net.