[ O Impulso Social Antropósofico ]

 

Resumo por Ute Craemer do primeiro capitulo do livro do Prof. Dieter Bruell, catedrático em Sociologia da Universidade de Amsterdam, Holanda

 

Não podemos chegar a uma compreensão verdadeira da questão social hoje em dia partindo de sentimentos, embora eles sejam, muitas vezes a mais bela expressão de um coração caridoso. Todas as nossas ações devem  passar pelo crivo de uma consciência clara e filosoficamente elaborada. A permanência no nível sentimental nos impediria de ultrapassar as emoções e os fanatismos descabidos.

Na ciência espiritual de Rudolf Steiner, encontramos muitos elementos que nos ajudarão a elabora uma “Ciência social” moderna. Na formulação de uma lei básica social, Rudolf Steiner adverte de o bem estar de uma sociedade depende do grau do meu empenho do trabalho pelo outro, o meu próximo. O ideal seria que ninguém mais trabalhe em proveito próprio mas em proveito do outro. “Social é quando faço da necessidade do próximo o motivo de minha atuação.”

Mas com esta colocação, ainda não chegamos a uma compreensão clara do que vem a ser verdadeiramente “social”. Devemos primeiro definir as esferas nas quais o “social” atua em diversos aspectos. O Prof. Brueli distingue entre a micro-esfera, uma meso-esfera e macro-esfera.

A micro-esfera seria a relação “eu-tu”. Na relação direta de pessoa com pessoa o impulso social tem o seu campo mais imediato de ação. Aqui encontro o meu semelhante na plenitude de sua manifestação humana.

Na macro-esfera o individuo se perde no anonimato. Claro que existem relações “sociais” por exemplo de operários de uma fabrica de geladeiras no Brasil com os compradores de seu produto na China. Mas só no nível de relações entre povos e nação é que chegarão a ter relevância. Também a relação do quitandeiro que vende os seus legumes a quem  quiser comprá-los fica na macro-esfera, no anonimato. Chegamos a uma meso-esfera só quando as pessoas estabelecem relações especiais entre si, p.ex.: os membros de uma comunidade, de pais de alunos de certa escola. Muitas vezes o meu comportamento na micro-esfera se projeta na macro-esfera.

Devemos pois, levar em conta a existência destas para mais tarde avaliarmos de maneira correta a situação “social” num definido caso.

Mas como chegaremos a uma definição correta da sociabilidade?  Como já vimos, as emoções prejudicam uma visão clara sobre o “social”. O Prof. Bruell recomenda uma aproximação segura pesquisando primeiro o “anti-social” e o “a-social”. Contudo nunca chegaremos a um resultado razoável se não limparmos estes conceitos de qualquer lastro emocional. Os conceitos hão de aparecer numa clareza cristalina para podermos trabalhar de maneira frutífera com eles.

Assim, o “anti-social” se revela ser uma propriedade indispensável do ser humano. Cada um de nós há de alimentar-se, vestir-se e ter um teto sobre a cabeça. Mas o que eu como, o que eu visto, onde eu me deito, o outro , o meu próximo já não pode mais comer, vestir e deitar-se. Mas como preciso sobreviver - e tenho o direito disto – sou forçosamente “anti-social”. Por natureza, como ser vivo, por necessidade biológica, sou um ser anti-social. Já aí podemos constatar certos exageros, embora raríssimas vezes o individuo tenha consciência disto: quando gasto mais água ao me lavar e tomar banho do que é absolutamente necessário, consumo bens em detrimento de meus semelhantes, sou exageradamente anti-social. Compreendemos assim porque Rudolf Steiner diz que quando levo uma vida modesta presto melhor serviço ao meu próximo!

O excesso de “anti-social” se revelaria numa capacidade desenfreada na qual cada um tentaria cortar par si o maior pedaço do bolo comum.

Passemos para o “a-social”. Magistralmente o Professor Buell explica o seguinte: com tal denominação de modo algum se deve compreender o conteúdo conceitual negativo que hoje se lhe empresta a linguagem corrente, isto é:seriam “a-sociais” as pessoas que segundo a versão burguesa, vivem à margem e as custas da sociedade, sempre no limiar da criminalidade. Aqui emprestamos ao termo “a-social” o significado que já tem pela sua origem etiológica ou seja: sem contato com o ambiente humano circundante. Assim o conceito de "a-social" apresenta um certo parentesco com conceito psiquiátrico de autista.

A diferença está em que o autista não consegue estabelecer contatos humanos ao passo que o homem “a-social” como membro da sociedade humana não quer estabelecer tais contatos, porque precisa de um recolhimento em si próprio para poder desenvolver-se. O homem “a-social” por excelência seria o mendicante. Compreendemos agora que a ação "a-social" é tão necessária como a ação anti-social. Sem o recolhimento em mim não consigo aprender! Ninguém pode aprender para outra pessoa o ato do aprender é individual e depende de minha faculdade de elaborar o conteúdo que preciso aprender. O fato de três vezes três dá nove não pode ser aprendido com experiência vinda de fora. É preciso nos ser revelado no nosso íntimo. Ler, escrever, calcular, os mais simples teoremas – tudo isto requer uma repetição da concentração "a-social" e do emprenho "a-social" dos primeiros geniais inventores que nos legaram conhecimentos.

Mas existem também exageros no "a-social". Suponhamos o seguinte: No recolhimento da minha alma elaboro uma teoria – me sobreveio um pensamento “genial” – e que de repente saio do meu recolhimento anunciando: agora sei! Esta é a verdade mais clara do mundo! Todos hão de aceitar isso, não é assim? Vejam só que idéia genial! E se os outros não querem aceitar a minha idéia genial, eu começo a xingar. Se tivesse o poder para isso, eu colocaria a todos na masmorra, até que aceitassem minha tão querida idéia genial. Vemos como o exagero no impulso "a-social" leva a intolerância.

Descobrindo o impulso anti-social como necessidade biológica e o "a-social" como necessidade psíquica, já teríamos os elementos para avaliarmos o que representa o “social”? Ainda não. Precisamos ampliar ainda mais o alcance dos impulsos anti-social e "a-social".

Vimos como o impulso anti-social exagerado conduz à “rapacidade”. Suponhamos o seguinte: corre o boato de que faltarão certos produtos básicos, por exemplo açúcar, farinha, feijão arroz. Certamente farei como todo mundo faz. Corro ao supermercado, compro quanto o dinheiro der e carrego tudo para a casa. Ali armazeno tudo com ar satisfeito do bom pai ou mãe de família . Pois bem . De repente caio em mim: O que consegui estocar não faltará numa outra casa? É certo que subtraio ao meu irmão o objeto desta minha perspicácia e ele vem a sofre um dia por isso? Claro que não!

Sinto surgir em minha alma um impulso novo: A fraternidade.

É verdade: a fraternidade freia o impulso anti-social e o mantém nos seus devidos limites. Na economia qual campo de atuação do anti-social há de reinar a fraternidade!

Neste ponto, urge parar um instante: Não existe uma teoria bastante defendida na qual justamente o egoísmo seria a mola propulsora da economia? Há séculos o pragmatismo tipo Adam Smith infesta as cabeças dos teóricos em economia. Muitos ainda hoje defendem uma “economia liberal de mercado” na qual o egoísmo conduziria ao “bem estar de todos”.

E na ciência natural conhecemos o darwinismo nas suas diferentes versões até o Neo-Darwinismo no qual reina a lei do mais forte e da sobrevivência do mais capacitado.

Mas graças a Deus existem impulsos mais sublimes: Devemos cultivar entre nós a fraternidade!

Vimos também como o impulso "a-social" exagerado conduz à intolerância. Assim surgem as famosas ideologias contundentes que na minha atuação "a-social" vejo como única verdade cabível. Mas caído em mim posso descobrir: como chego no meu recolhimento "a-social" a uma certa “ideologia”, o meu irmão também pode chegar à sua! Não tem ele afinal o mesmo direito que eu? Assim posso chegar à conclusão: No pensar qual é o campo de atuação "a-social", nas ideologias por mim elaboradas, há de reinar a liberdade.

Também ai urge parar um instante; Não existem “dogmas” que preciso aceitar sob pena de exclusão de certos benefícios? Pelo “brain washing” as ditaduras e tiranias querem exterminar qualquer pensamento contrário à opinião oficialmente aceita – e quem não obedece será exterminado! Outra vez podemos dar graças a Deus que existem impulsos mais sublimes no coração humano no coração humano: O respeito da liberdade do meu irmão!

Estaríamos agora preparados para compreender a essência do “social”? Vamos tentar uma primeira aproximação:

A humanidade se encontra numa época de grande importância. Decorreram mais de 200 anos de Revolução Francesa. Embora tenha terminado de maneira tão cruenta, com milhares de sacrificados na guilhotina, foi um passo decisivo no progresso da evolução humana. Os gritos de “liberté, fraternité, egalité” ainda ecoam nas almas. Na antroposofia conhecemos os três princípios base da trimembração do organismo social. Já vimos como a fraternidade consegue apaziguar os desejos desenfreados do anti-social na economia. Nas ideologias, o respeito à liberdade do irmão refreia a intolerância. Resta saber onde encontrar a igualdade . Será que ela tem a ver com a essência do “social”? Creio que sim!

Há dois “eventos” na vida humana onde estamos todos rigorosamente iguais; o nascimento e a morte. Estes dois “eventos” ocorrem no limiar entre a vida material e espiritual. No nascimento ainda não estamos completamente encarnados e na morte já parcialmente fora do corpo.

Neste ponto somos cidadãos de dois mundos.

Mas existe um estado de alma que posso voluntariamente assumir que também me coloca na situação do cidadão dos dois mundos!

Provisoriamente já sabemos algo do “social”: Social é fazer da necessidade do outro o motivo da minha atuação. Mas como eu trabalho pelo outro, ele também trabalha para mim. Numa profunda gratidão me sinto devedor dos outros.

Como o grande Sócrates chegou depois de uma vida filosófica profunda e rica à conclusão “Sei que nada sei” Assim chego a conclusão de que “nada tenho mas tudo devo”. Agora vislumbramos o alcance do social

Se eu chegar a ponto de vivenciar-me apenas como devedor, como homem que deve aos outros tudo o que possuo, isso significa que no cerne de minha personalidade nada mais me pesa, sou apenas enteléquia , ser espiritual e com tal sou igual a todos os outros seres humanos. Assim chego a compreendera igualdade qual princípio e direito.

Quanto ao direito existe a seguinte seqüência;:Justiça – Direito – Lei – Mandamento.

 

Vejamos : os mandamentos constam do Velho Testamento dentro da “tora” da lei. Podemos dizer que o decálogo, (os dez mandamentos) representa algo como uma súmula da “torá”. Por exemplo, o quarto mandamento dispõe que honremos e respeitemos os pais.. Eles, os pais, têm “o direito” de serem, respeitados e quem não obedece aos mandamentos será julgado na justiça.

Mas para a compreensão do social devemos levar em conta o seguinte: No texto dos mandamentos os artigos aparecem no futuro , no original hebraico, como no português lemos: “não matarás”. Naturalmente que isso significa primeiro: não deves matar”. No “não matarás”, porém vive também uma promessa; um dia não matarás mais! Um dia esse mandamento estará escrito não mais em tábuas da lei mas dentro do seu próprio peito! Surgirá uma nova dignidade humana cujo campo de ação será o ambiente social.

Desta maneira vemos nos três princípios básicos do “social” uma escala ascendente.

No anti-social, concebido como necessidade biológica  do homem, encontramos o limiar entre o reino animal e do homem.

No “a-social”, concebido como necessidade anímica , estamos exatamente no nível humano. Aprender a ler, escrever, calcular – a desenvolver as capacidades anímicas, as atividades humanas por excelência.

No “social” elevamo-nos ao limiar do mundo espiritual, tocamos o mundo dos anjos.