[ Conceituação de Redes Sociais: um olhar teórico sobre duas experiências práticas - Fabiana Kuriki e outros ]

 

Este texto é um resumo da revisão bibliográfica inclusa na monografia desenvolvida pelos autores do artigo no curso do MBA Gestão e Empreendedorismo Social (FIA/FEA/USP).

A questão central do trabalho girou em torno dos reais impactos e benefícios do trabalho em rede. O estudo, em uma de suas etapas, incluiu o acompanhamento de duas redes sociais da Grande São Paulo - Rede Butantã e Associação Cirandar – por meio de entrevistas, comparecimento aos encontros presenciais e análise documental.

Em uma etapa anterior, foi realizada uma revisão bibliográfica que contribuiu para o embasamento, a compreensão e a observação das duas organizações, reforçando empiricamente o conceito de redes sociais. É essa revisão da literatura que se apresenta neste artigo.

Existem muitos conceitos de rede, dos mais abrangentes aos mais restritivos. Há quem entenda que rede é vida, ou seja, tudo que acontece na vida se dá em rede pois todas as coisas se inter-relacionam (CAPRA, 1996). Outros entendem que rede é o conjunto de relações interpessoais não necessariamente conectadas de forma consciente (FARIA e TEIXEIRA, 2000) ou voltadas para um objetivo comum (LOPES e MORAES, 2000).

Para os fins deste estudo, voltado especificamente para redes de pessoas e organizações que procuram, em maior ou menor amplitude, a melhoria da qualidade de vida da população, entende-se rede social como uma estrutura horizontal, democrática, participativa, aberta e presencial que une indivíduos e/ou organizações em torno de valores e objetivos compartilhados, sem que as partes percam autonomia e identidade.


Estrutura horizontal

A horizontalidade das redes é uma contraposição à estrutura piramidal e às relações tradicionais de poder e representação (AMARAL, 2003), na qual a relação de poder é ditada por uma estrutura hierarquizada. Segundo Martinho (2003), as redes não têm uma estrutura central de poder, cada ponto que a forma é um centro em potencial de poder. Em uma estrutura de rede, os conectores são os detentores do poder (CASTELLS, 2002).

A horizontalidade, no entanto, não precisa ser absoluta. Podem existir figuras de liderança ou de secretaria numa rede. Todavia, as lideranças devem surgir de forma legítima, assumindo e mantendo compromissos firmados e, também, atuando como seguidores (AYRES, 2003) de forma democrática diante da vontade do conjunto.

Neste sentido, o limiar entre o que é horizontal ou não pode ser tênue. A constatação da

horizontalidade depende, portanto, de uma avaliação empírica. A estrutura horizontal só pode ser efetivamente caracterizada pela análise das reais relações de poder vigentes, pois são estas que definem a horizontalidade – formal e/ou informal - da rede social e de qualquer organização.


Uma estrutura democrática e participativa

A rede social deve ser também democrática e participativa. Estas duas palavras devem estar juntas, porque democracia sem participação é uma democracia de fachada e participação sem democracia é uma pseudo-participação.

Do ponto de vista formal, a democracia é um processo de convivência social em que o poder emana do povo, há de ser exercido, direta ou indiretamente, pelo povo e em proveito do povo (SILVA, 1995).

Tradicionalmente a literatura tem afirmado que a democracia repousa em três grandes princípios: o princípio da maioria, o princípio da igualdade e o princípio da liberdade. No entanto, sem que se unam os pressupostos de soberania popular e participação, a democracia pode virar uma ditadura da elite e da maioria.

A participação efetiva e pró-ativa se traduz na principal ferramenta de concretização de uma democracia verdadeira e para todos. É aquela que influi nas decisões e, nas palavras de Viviane Amaral (2003), representa uma “revolução política individual, uma nova forma de organizar e vivenciar os espaços de poder”.

O empoderamento é o resultado da união entre democracia e participação, pressuposto básico para a realização do trabalho em rede.


Aberta

A abertura da rede está relacionada à liberdade dos indivíduos e/ou organizações entrarem e saírem da rede quando lhes convier, respeitando-se eventuais restrições temáticas, geográficas ou organizacionais previamente estabelecidas.


Presencial

A rede social que contempla encontros presenciais periódicos aprofunda suas discussões, enriquece a diversidade de assuntos, visões e perspectivas e alavanca possibilidades de formação de sub-redes. O encontro presencial favorece a apropriação pelo participante tanto do espaço público, como do espaço da própria rede . Segundo Amaral (2004), é o

presencial que dá densidade à rede.


Valores e objetivos compartilhados

Uma rede social deve possuir objetivos e propósitos comuns que justifiquem a sua existência. Em uma rede de compromisso social “as relações nascem e se nutrem de uma visão comum sobre a sociedade ou sobre determinada questão social e da necessidade de uma ação solidária” (INOJOSA, 2000, p. 6).

No entanto, objetivo comum é condição necessária, mas não são suficientes para a sustentabilidade de uma rede. É preciso também que os participantes compartilhem valores. Neste sentido, Bernardo Toro define o conceito de “imaginário convocante”. Segundo Toro (1995), o imaginário define, de forma incisiva e válida, os propósitos almejados e as situações que devem ser propiciadas. Enuncia o futuro a construir, expressa critérios para orientar os múltiplos esforços e decisões requeridos para convertê-lo em realidade”.


Autonomia e identidade

As organizações e indivíduos que participam de uma rede não deixam de ter identidade própria e autonomia para suas decisões dentro e fora da rede. Os participantes permanecem estruturados da mesma forma que eram antes de ingressar ao grupo, podendo atuar dentro e fora da rede de acordo com suas convicções. No entanto, cada participante entende que a rede potencializa as foças individuais e organiza ações conjuntas, somando forças e idéias individuais.

Os participantes da rede não são limitados por hierarquias. A diversidade de talentos e experiências dos participantes autônomos e independentes gera o caldo criativo e transformador do grupo, que é sua força motriz (AYRES, 2002).

Na rede não há subordinação, sendo que todos são iguais e ao mesmo tempo diferentes entre si (MARTINHO, 2002). Adequar a autonomia e a independência à realização efetiva de ações conjuntas e à concretização dos objetivos da rede é um dos grandes desafios do trabalho estruturado em rede.

É importante ressaltar que conceito de rede continua sendo aberto e pode ir se alterando de tempos e tempos. Aliás, as rede podem e devem fazer um contínuo movimento de auto-conhecimento e reestruturação.

O conceito ora apresentado é um dos modelos estruturais passíveis de apropriação pela organização que pretende trabalhar em rede em prol do bem comum, mas o maior desafio continua sendo o da efetiva transformação social e melhoria da qualidade de vida da

população.

 

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Sobre o autor:
Fabiana Kuriki  é graduada em Comunicação Social pela ESPM. Feito em parceria com Fabiana Toyama, administradora de empresas, Gabriela Pluciennik, advogada, e João Prado, administrador de empresas.