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[ Tolerância Ativa e a Trimembração do Organismo Social ] |
Texto
inspirado pela palestra de Rudolf Steiner, “Aspecto Interior do Enigma Social”
proferida em Zurique, em 11 de fevereiro de 1919, que consta no GA
193.
Mais
do que nunca, o século 21 pede que pensemos como organizar a sociedade, saindo
do conceito da centralização do Estado, estruturando o organismo social, com vários
órgãos que têm sua tarefa específica e seus valores específicos.
Há
um aspecto trimembrado no nosso corpo, na nossa alma e também na sociedade. A
trimembração corporal se manifesta através do sistema neuro-sensorial (nervos
e órgãos sensoriais), do sistema rítmico (coração e pulmão) e do sistema
dos membros e do metabolismo. A nossa alma se expressa através do pensar, do
sentir e do querer. E a sociedade se estrutura através da vida espiritual, com
as vertentes educacional e cultural, da vida jurídica, com as vertentes política
e social, e da vida econômica, com a produção, o consumo e a distribuição.
Estes três membros constitutivos da sociedade obedecem às leis próprias e aos
ideais: liberdade para a vida cultural e espiritual; igualdade na vida jurídica
e no Estado; e fraternidade na vida econômica. Da mesma maneira que existem
leis que regem nosso corpo, existem leis que permitem que cada um daqueles
membros possa agir de uma maneira saudável para o bem de cada indivíduo e para
o bem da humanidade como um todo. Esse aspecto exterior da trimembração social
pode ser pensado e observado na estruturação social.
Rudolf
Steiner chama atenção ao aspecto interior do organismo social. A vida
espiritual e cultural nasce dos impulsos individuais. Um pouco antes de
nascermos captamos certas forças das hierarquias que nos conduzirão durante a
vida terrena às comunidades espirituais que estão relacionadas conosco. Da
vida antes do nascimento chegam dons, talentos e habilidades formando os germes
da vida cultural. Assim, a vida espiritual terrestre deriva da iniciativa
individual de cada ser humano, em plena liberdade, e faz com que o indivíduo se
junte a outros indivíduos com interesses comuns criando manifestações
culturais, educacionais e espirituais diferenciados. Em resumo, a vida
espiritual e a cultural têm uma
forte ligação com agrupamentos de pessoas livres, com a cooperação entre os
seres humanos, e assim se liga fortemente ao acontecimento central da evolução
da terra que é o mistério do Gólgota. É um engano pensar que o impulso de
Cristo pertence ao homem individual. Ele pertence à comunidade humana. A
relação de Cristo não se dá através de uma ligação de um indivíduo com
Cristo. O essencial é que Cristo viveu, morreu e ressuscitou
para a humanidade inteira e não para uma pessoa individualmente.
Por isso Cristo é ligado intimamente às comunidades que cultivam a vida
educacional e cultural no sentido da
compreensão e do amor a qualquer ser humano.
Bem
diferente se constitui a vida jurídica. Ela se desenrola somente na terra,
entre nascimento e morte. Tudo que tem relação com o direito, por exemplo o
direito do uso da terra, o direito à segurança, ao desenvolvimento, à
saúde têm a ver unicamente com a nossa passagem no mundo terrestre. "Dá
a César o que é de César, a Deus o que é de Deus", disse Cristo. Ou
seja, o Estado não pode intrometer-se na vida cultural e educacional. Sua
tarefa é garantir o direito à educação, sem interferir na estruturação
filosófica da escola, permitindo a auto-gestão na elaboração do currículo
escolar.
A
vida econômica é o terceiro membro da sociedade. Se nós nos concentramos
unicamente no fato de sermos inseridos na vida produtiva e do consumo,
tornamo-nos um animal pensante. A vida econômica tem uma tendência a nos
pressionar ao sub-humano. O que nos salva é a vida espiritual e a vida dos
direitos que o animal não possui. A economia, entretanto, pode nos despertar
para algo novo: a fraternidade. Parece um paradoxo mas na
vida econômica reside uma grande chance para cada ser humana, uma chance
que surge através da nossa consciência . Podemos perceber que a vida econômica
é uma troca e esta troca pode se
basear no ideal da fraternidade, no ideal da solidariedade. De onde vem o feijão
que comemos, a roupa que trajamos, o computador que usamos? Eu dependo do outro,
quer seja no Brasil ou fora do Brasil, para poder viver. Perguntas surgem: quem
são as pessoas que produzem o que eu
consumo? Como elas vivem, em que acreditam etc. Um interesse social, sentimentos
de comunhão podem acordar não só para as pessoas mais próximas, mas para a
toda humanidade. O conceito de globalização se amplia para uma globalização
não só econômica, mas um interesse profundo em cada ser humano no mundo, no
colorido específico de cada indivíduo, de cada grupo, de cada povo. O
indivíduo é importante porque sua contribuição enriquece o grupo através
das suas habilidades e talentos ao mesmo tempo que se enriquece com o convívio
e a cooperação do grupo.
A
questão é como chegar a um convívio
tolerante, respeitoso quanto às diferenças culturais, caracterológicas, étnicas,
etc, sem perder sua própria identidade, sua identificação cultural e seu
ponto de vista. E como atuar concretamente seguindo esse ideal de uma globalização
ampliada pela fraternidade?
Seguem
trechos da palestra de Rudolf Steiner que possam incentivar uma reflexão para
esses assuntos:
"Em
lugar de ter interesse unicamente na minha própria maneira de pensar
no que eu considero correto, devo desenvolver um interesse genuíno por
toda opinião que encontrar, por mais que possa considerá-la errônea. Quanto
mais o ser humano se orgulha de suas próprias opiniões dogmáticas e se
interessa apenas por ela, tanto mais ele se afasta nesse momento da evolução
do mundo do Cristo. Quanto mais ele desenvolver um interesse social pelas opiniões
de outras pessoas, mesmo considerando - as errôneas - quanto mais luz ele
receber em seu próprio pensar a partir das opiniões dos outros - tanto mais
ele consumará no íntimo da sua alma ao dizer de Cristo.
Cristo
disse: 'O que quer que tenhas feito ao
menor desses meus irmãos foi a Mim que o fizeste'.
O Cristo nunca cesse de se revelar sempre de novo aos homens - até o
final dos tempos terrestre. E assim Ele fala hoje para aqueles que querem escutá-lo:
'No que quer que o menor de teus irmãos esteja pensando, deves reconhecer que sou Eu que estou pensando nele; e que Eu entro em teus sentimentos sempre que estabeleceres uma relação entre o pensamento do outro com o teu próprio e sempre que sentires um interesse fraterno pelo que se passa na alma do outro. Qualquer que seja a opinião, qualquer que seja o ponto de vista sobre a vida que descobrires no menor de teus irmãos, nisto estarás buscando a Mim'. Assim fala o Cristo para nossa vida de pensamento - o Cristo que deseja revelar-Se de uma nova maneira - o tempo está próximo - para os seres humanos do Século XX...
Nós
não o encontraremos se ficarmos presos egoisticamente a nosso próprio
pensamentos, mas somente se relacionarmos nossos próprios pensamentos com os de
outras pessoas, se expandirmos nosso interesse para abraçar com tolerância
interior, tudo que é humano, e dissermos para nós mesmos: 'Pelo fato do meu
nascimento eu sou uma pessoa preconceituosa; só através de um renascimento num
sentimento todo abrangente de irmandade pelos pensamentos de
todos os seres humanos, encontrarei em
mim mesmo o impulso que em verdade que, em verdade é o impulso de
Cristo. Se eu não olho para mim mesmo somente como fonte de tudo que penso, mas
se me reconheço nas profundezas de minha alma, como um membro de toda a
comunidade humana' então, meus caros
amigos, um caminho para o Cristo está aberto. Este é o caminho que deve ser
caracterizado hoje como o caminho para o Cristo através do pensamento. Sério
auto-treinamento de forma a obtermos uma percepção verdadeira para estimar os
pensamentos de ouros e corrigir vieses em nós mesmos - isto devemos tomar como
uma das tarefas mais sérias da vida. Pois a não ser que isto tenha lugar entre
os homens, eles perderão o caminho para o Cristo. Este é hoje o caminho pelo
pensamento.
O
outro é o caminho através da vontade. Aqui também as pessoas estão muito
viciadas num falso caminho, que não leva ao Cristo mas as afastam dele. E nesse
outro âmbito devemos novamente encontrar o caminho para Cristo. A juventude
ainda preserva algum idealismo, mas em sua maior parte a humanidade hoje é seca
e pragmática. E os homens se orgulham do que tantas vezes é chamado de técnica
prática, mas o termo é sempre usado em sentido estreito. A humanidade hoje não
quer saber de idéias que são extraídos de fonte do espírito. A juventude
ainda tem estes ideais... Mas o que é esse idealismo juvenil? É uma coisa
bela, uma coisa grandiosa - mas não deveria ser suficiente para os seres
humanos, pois este idealismo juvenil está de fato vinculado ao Ex Deo nascimur,
com a dimensão do Divino que identificamos com o aspecto de Jeová (no sentido
de ser 'natural', 'inato' - n.t.). E é justamente isto que não deve permanecer
suficiente, agora que o Mistério do Gólgota foi realizado na terra. Algo mais
é requerido - idealismo deve brotar do desenvolvimento interior, da auto-educação.
Ao lado do idealismo inato da juventude, devemos cuidar que na sociedade humana
se adquira algo distinto - precisamente um idealismo adquirido: não meramente o
idealismo que brita dos instintos e entusiasmo de juventude, mas um que é
nutrido, obtido por sua própria iniciativa e que não esvanecerá com o passar
da juventude. Isto é algo que abre o caminho para Cristo pois - mais uma vez -
é algo adquirido entre o nascimento e a morte...
Não perguntem hoje por caminhos abstratos para o Cristo; peçam por estes dois caminhos concretos. Busquem compreender o caminho através do pensamento, que consiste em se tomar interiormente tolerante com relação às opiniões da humanidade como um todo, e desenvolvendo interesse pelos pensamentos de outros homens. Busquem também o caminho através da vontade - lá vocês não encontrarão nada abstrato, mas uma necessidade inescapável de cultivar idealismo em si mesmos. E se vocês cultivarem idealismo em si mesmos. E se vocês cultivarem este idealismo, ou se o introduzirem na educação dos jovens - 0 que é particularmente necessário - então vocês terão algo que inspira as pessoas a não fazer apensa o que o mundo exterior os impele a fazer. Pois deste idealismo surge a resolução de fazer mais do que o mundo dos sentidos sugere - de atuar a partir do espírito. Quando nossas ações brotam deste idealismo adquirido estamos atuando em sintonia com as intenções do Cristo, que não desceu dos mundos supra-terrestres para consumar fins meramente terrestres. Ele desceu do alto para a terra para consumar um propósito supra-terrestre. Nós só cresceremos em direção a Ele se cultivarmos idealismo em nós mesmos, de tal maneira que Cristo, que representa o supra-terrestre sobre a terra, possa atuar através de nós. Só no idealismo adquirido pode se realizar a expressão de Paulo sobre o Cristo: 'Não eu mas Cristo em mim'...
Quem
quer que desenvolva um idealismo adquirido em si mesmos, este terá amor pela
espécie humana... Você pode pregar quanto quiser dos púlpitos, dizendo às
pessoas que devem amar-se uns aos outros: é como pregar para um fogão. As mais
excelentes exortações não persuadirão o fogão a aquecer o ambiente. Ele
aquecerá o ambiente bem se o nutrirmos com carvão - não há necessidade de
pregar que é o seu dever aquecer o
ambiente. Exatamente da mesma forma se pode ficar pregando para as pessoas:
amor... amor, amor... são apenas sermões, meramente palavras. Lutem de preferência
para que as pessoas possam experimentar um renascimento do idealismo, para que
ao lado do idealismo inato possam desenvolver em suas almas um idealismo que
persiste pela vida, então... então se despertará um calor da alma no amor de
ser humano para ser humano. Na medida em que vocês nutrirem idealismo em si
mesmos, nesta mesma medida serão levados para fora do egoísmo em direção a
uma preocupação com outros seres humanos.
E
se vocês seguirem estes dois caminhos, o caminho através do pensamento e o
caminho através da vontade, que eu lhes mostrei com vistas à renovação da
Cristandade; há uma coisa que certamente irão experimentar e descobrir. A
partir de um pensar que é interiormente tolerante e interessado nos pensamentos
de outros e a partir de um querer renascido
através da aquisição de idealismo, algo desabrocha. E isto pode ser descrito
somente como um senso refinado e elevado de responsabilidade por tudo que se
pensa e que se faz. Esse sentimento elevado de responsabilidade nos leva a
dizer: 'Posso justificar o que estou fazendo ou pensando, não meramente com
referência às circunstâncias imediatas de minha vida e ambientes, mas à luz
de minha responsabilidade diante do
mundo supra-sensível, espiritual?'...
Isto
nos chega como uma advertência solene, quando se busca este duplo caminho para
o Cristo - é como se um Ser se colocasse atrás de nós, olhando sobre nossos
ombros e dizendo repetidamente: 'Não és responsável apenas frente ao mundo ao
redor de ti, mas também, frente ao mundo Divino-Espiritual por todos os teus
pensamentos e todos os teus atos... É este Ser que nos conduz verdadeiramente
para o Cristo, que passou pelo Mistério
do Gólgota'.
Poderíamos
pensar que tudo isso é inalcançável, ilusório. Mas observamos os germes
brotando desde a 2a. Guerra Mundial no movimento pela paz, na Annesty
International, nas milhares de comunidades da sociedade civil que cada vez mais
conscientemente procuram esse caminho de tolerância ativa. Como consta na
Declaração dos Direitos Humanos da ONU: É na mente dos homens que nasce a
guerra e na mente dos homens que devem ser construídos os baluartes da Paz. E
gostaria de acrescentar: não só na mente, mas no coração e nas mãos."